A soja é um dos cultivos de maior importância mundial e componente básico dos concentrados para animais. Estes últimos por sua vez são a fonte de carne, frango, ovos, leite e muitos produtos que diariamente nos acompanham em nossa mesa. A biotecnologia desempenha um papel muito importante devido a que o 81% da Soja Mundial é Biotecnológica e permite produzir soja de uma maneira mais rentável para o agricultor, gerar óleos especiais para frituras e dispor de práticas agrícolas modernas que permitem conservar o solo.

O grão da soja é processado em 85% da sua totalidade como farinha de soja e óleo. A farinha de soja é comumente usada nos concentrados para alimentação animal devido a que contém uma grande quantidade de proteína. Como parêntese para o leitor, geralmente é necessário 3kg de grãos para gerar um quilograma de carne de porco . O óleo é utilizado diretamente para consumo e em alguns casos para gerar biodiesel.

Então, entendamos um pouco o mercado global da Soja, o papel da biotecnologia e quais biotecnologias existem ou estão em desenvolvimento para a Soja.

 

Comecemos com o mercado mundial

O intercâmbio comercial varia se a soja for exportada como grão com 129.1 milhões de Toneladas ou como farinha com 66.2 milhões de Toneladas, o detalhe por país e as situações políticas que dão origem a esta diferença será descrito mais adiante.

O 86% das exportações mundiais da Soja como grão provêm de três países: Estados Unidos (46.7 milhões de Toneladas), Brasil (57 milhões de Toneladas) e Argentina (10.8 milhões de Toneladas); e o restante provém de outros países da América do Sul como o Uruguai, o Paraguai e a Bolívia (7.8 milhões de Toneladas), a Ucrânia (2.4 milhões de Toneladas) e outros (4.9 milhões de Toneladas). Os importadores destes grãos de Soja são: a China (83 milhões de Toneladas), a Comunidade Econômica Europeia (13.7 milhões de Toneladas) e os países Asiáticos como Taiwan (2.4 milhões de Toneladas) e Japão (2.9 milhões de Toneladas). Com referência à farinha de Soja, os maiores produtores são: a Argentina com 30.6 milhões de Toneladas, o Brasil com 15.6 milhões de Toneladas e os Estados Unidos com 10.8 milhões de Toneladas. Os importadores da farinha de Soja são principalmente os Europeus com 20.2 milhões de Toneladas e o Sudeste Asiático com 16.3 milhões de Toneladas.

Analisemos o cenário político para entender as diferenças nas exportações mundiais da Soja. Nos anos 90 o Governo da China iniciou sua transformação de produtor a importador de soja. A China solicitou o ingresso em 1995 à Organização Mundial do Comercio e tornou-se o membro 143 em dezembro de 2001 , . Três políticas adicionais demonstram essa mudança de produtor a importador. A primeira é que o país gerou uma política em 1995 de ser 95% autossuficiente em grãos como trigo e arroz, excluindo a soja . A segunda é que de 2008-2012 gerou uma política de maior apoio para controlar os preços em cultivos como arroz, trigo e milho e nem tanto na Soja. A terceira é a política das fronteiras da China que favorecem a importação de grãos de soja com um 3% de imposto, comparado com os de farinha e óleo de soja de 5 e 9% respectivamente.

Em suma, a população da China de 1.4 Bilhões (18% da população mundial de 7.5 bilhões) está consumindo mais carne. Em 2015 consumia 50 kg per capita e se estima que aumentará o seu consumo a 56,5 kg per capita em 2015. Como ponto de referência, o país de menor consumo é a Índia que aumentará o seu consumo no mesmo período de 2,9 a 3,4 kg per capita. Além disso, a China tem limitações em agua e terreno arável e o custo por produzir soja se incrementou como consequência do custo de locação de terreno e mão de obra . Tudo isto faz com que a China seja um importador neto e dependa da importação de grãos de soja para poder abastecer a uma grande indústria de alimentação animal para a produção de porco, frangos e carne . Em termos de projeções isto significa que a China atualmente com um consumo de 83 milhões de toneladas de grãos de Soja aumentaria o seu consumo para um total aproximado de 109,5 milhões em 2025 .

Outro aspecto político que também influiu no mercado de Soja foi a política da Argentina de 2002 a 2015 de um imposto maior aos grãos em comparação com a farinha e o óleo de soja. Isto favoreceu a produção e a exportação da farinha de soja.

 

COMPARATIVO CONSUMO DE CARNE NA CHINA E NA ÍNDIA

 

Fonte: https://data.oecd.org/agroutput/meat-consumption.htm

 

O papel da Biotecnología

A Biotecnología foi amplamente adotada pelos países produtores de milho, soja, canola e algodão. No caso da soja, a adoção nos Estados Unidos segundo o Departamento de Agricultura do Estado (USDA) é de um 94% , a porcentagem é similar no Brasil com um 93,2% dos 31,2 milhões de Hectares plantados e na Argentina é praticamente o 100% , enquanto que no nível mundial é de um 81% .

A adoção está dada por um aumento de rendimento derivado da proteção do cultivo principalmente contra as ervas-daninhas para os cultivos tolerantes aos Herbicidas e se estima em um benefício de pelo menos um 4.2% a mais de ingresso ao agricultor e um acumulado de 46.6 Bilhões de dólares de 1996-2014. Enquanto que para a Soja com resistência aos insetos e tolerância aos Herbicidas, a porcentagem de ganho em rendimento para o agricultor oscila entre um 7,8 e um 11,9%. Além disso, o uso deste tipo de variedades permite usar cultivo mínimo, o que aumenta o sequestro de Carbono, diminui o consumo de combustível por maquinaria para arar o terreno de 45.6 a 31.7 litros por Hectare e aumenta a proteção do solo .

A segurança da Biotecnología para a saúde humana e o ambiente foi amplamente revisada por Acadêmicos, Científicos e Reguladores do mundo inteiro, como a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos , o projeto GRACE da Comunidade Econômica Europeia , e o Conselho de Ciência e Tecnologia do Reino Unido .

 

As Melhoras Biotecnológicas na Soja

A característica maiormente adotada é a tolerância aos herbicidas devido a que foi a primeira melhora que se introduziu nos anos 90. Atualmente estão no mercado diferentes melhoras na soja, que incluem um maior número de grãos por vagem (vagens com 3, 4 e 5 grãos), soja com ácidos graxos saturados (isto é, com ácido oleico e sem ácido linoleico) que permite gerar óleos especializados para frituras sem gorduras trans, Soja tolerante a insetos Lepidópteros e novas tolerâncias aos herbicidas . Se for do interesse do Leitor conhecer as melhoras, traços ou “traits” autorizados para o cultivo, pode seguir as referências para o Brasil , a Argentina , e os Estados Unidos .

Os países importadores também autorizaram as novas variedades da Soja para ingressar aos seus mercados como o caso da Europa com três novas autorizações dadas em julho de 2016 que corresponderam a Soja com tolerância aos herbicidas e com um aumento em ácido oleico e menor ácido linoleico ; e a China com tolerância a mais herbicidas.

Uma das características mais interessantes e públicas que entram no cenário da Soja é a Tolerância à Seca da Argentina. Os pesquisadores do Instituto de Agrobiotecnologia da Universidade Nacional do Litoral (UNL) da Argentina encontraram um gene no girassol chamado Hahb-4 que é como um ativador do sistema interno de alerta da planta contra a seca , , . Isto significa que a soja com esta característica responderia mais rápido à seca e poderia sobreviver mais tempo.

A nova geração da Soja que veremos nos seguintes anos inclui tolerância a nematóides, resistência a enfermidades, resistência aos fungos, maiores rendimentos, e aumento em óleos de valor alimentício. Em um período médio de 5 anos estarão no mercado soja com maior quantidade de ômega 3, soja com baixos ácidos graxos saturados, novas gerações de tolerâncias a insetos e soja com múltiplas tolerâncias aos herbicidas .<

Em síntese, a soja é e seguirá sendo um cultivo de grande importância mundial. A Biotecnología desempenha um papel fundamental para que o cultivo seja eficiente, rentável e que permita ser uma fonte básica de baixo custo para que tenhamos carne, frango, ovos, leite e muitos produtos que diariamente nos acompanham.

 

 

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