A Antracnose, uma doença limitante para a produção de mamão 

A antracnose é causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides e é considerada como a principal doença pós-colheita do mamão (Carica papaya L.) sendo limitante em países produtores como Havaí, México, e em muitas outras regiões tropicais.

Apresentado por: Ivonne Angélica Quiroga Ramos. Engenheira Agrônoma, M.Sc (c) – Fisiologia de cultivos, Universidade Nacional da Colômbia.

 

 

Especialistas convidados

  • Jhon Aldana, Presidente da APPALSI (Associação Agroecológica de Produtores e Comercializadores de Mamão do Alto Sinú) Valencia, Córdoba (Colômbia).
  • Ricardo Mora, Engenheiro Agrônomo, fitopatologista.

A antracnose é causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides e é considerada como a principal doença pós-colheita do mamão (Carica papaya L.) sendo limitante em países produtores como Havaí, México, e em muitas outras regiões tropicais. Na última década as plantações de mamão em todo o mundo aumentaram em um 5,63% ao ano, devido à alta demanda desta fruta por suas propriedades nutritivas, medicinais e pelo seu sabor, além disso ao nível de produção é um cultivo que oferece renda aos produtores a partir dos 6 meses após o transplante1, porém a sua produção e exportação a outros países se vê afetada devido à presença da antracnose, a qual causa grandes danos na fruta tanto no campo como na pós-colheita.

 

 

Foram estimadas as perdas pós-colheita no cultivo de mamão entre 25-40%, devido a problemas fitossanitários, entre os quais está a antracnose que prejudica a qualidade do fruto, afetando assim os países líderes de exportação como o México, atingindo perdas econômicas de aproximadamente US$ 28 milhões.2

Dentro das diferentes variedades de mamão tais como Maradol, Tainung, Sunrise e Havaiano (híbrido), informou-se que a variedade más susceptível à antracnose é Maradol.

 

 

O mamão pertence à família botânica das caricáceas, nativa do México e da América Central, é considerado uma fruta tropical e exótica altamente apetecida devido a que é considerada como fonte de antioxidantes, vitamina B, minerais e fibra. Mundialmente o mamão é produzido em más de 60 países, e de acordo com a FAO no ano 2010 foi registrada uma produção de 11.568.346 toneladas em todo o mundo, sendo os principais produtores: Índia (38.61%), Brasil (17.5%), Indonésia (6.89%), Nigéria (6.79%), México (6.18%), Etiópia (2.34%), Colômbia (2.08%), Tailândia (1.95%) e Guatemala (1.85%)3. O México é o país Latino-americano com maiores exportações de mamão; em 2014 exportou aos Estados Unidos a quantidade de 6,765 contêineres equivalentes a 121,770 toneladas de fruta, e o Brasil é o principal concorrente do México em exportação de mamão, exportando 14,000 toneladas de fruta no ano de 20144.

 

 

A antracnose, do grego “carvão” é uma doença limitante para os frutos de mamão, afetando a sua vida útil; é causada principalmente por Colletotrichum gloeosporioides, porém é possível encontrar outras espécies de Colletotrichum causando doenças em um mesmo cultivo. Por exemplo em Yucatán, foram encontradas pelo menos duas espécies de Colletotrichum, que causam antracnose no mamão Maradol, estas espécies são identificadas como Colletotrichum gloeosporioides e Colletotrichum dematium5.

O Colletotrichum gloeosporioides se caracteriza por ter estruturas reprodutivas ou esporos, chamados conídios, dispostos em acérvulos, os quais participam no processo de infecção da planta. Durante a colonização da planta se apresenta a fase inicial ou biotrófica na qual o fungo se alimenta das células vivas da planta e o patógeno se estabelece na planta, e a segunda fase necrotrófica onde os recursos se obtêm das células mortas da planta devido ao ataque do patógeno, observando-se os primeiros sintomas da doença.

 

Os sintomas inicialmente se apresentam em forma de exsudatos gomosos e logo como pequenas lesões de 1cm de diâmetro de aspecto oleoso e a seguir estas ficam da cor marrom com halo amarelo com tendência a afundar-se na borda; com o tempo as lesões coalescem e se estendem a várias zonas do fruto. Na zona central da lesão se observa um pequeno afundamento e o centro é de cor cinzenta a marrom com pontos de cor salmão ou rosa onde se localizam os acérvulos e no interior os conídios (estruturas reprodutivas). Na medida em que o fruto amadurece ocorre o amolecimento da epiderme e na medida em que aumenta o amolecimento o fungo coloniza mais o fruto apresentando-se lesões maiores que 3cm.

Sintomas de antracnose: na parte esquerda, sintomas iniciais em campo; no centro: sintomas apresentados na pós-colheita após 5 dias de armazenamento da fruta, observando-se a união e o afundamento das lesões; na parte direita, os sintomas avançados e lesões colonizadas também por outros patógenos.

 

A fonte de inóculo do fungo (conídios) pode encontrar-se em outras partes da planta como folhas cloróticas ou secas, caules e ramos afetados ou hospedeiros alternos, posteriormente o inóculo pode dispersar-se por meio do vento ou da água. Uma vez dispersas, elas se aderem à superfície do fruto e podem germinar em 24 horas produzindo o tubo germinal o qual penetra a cutícula do fruto. Após a penetração da cutícula as hifas podem colonizar a parede celular do fruto; os primeiros sintomas (período de incubação) podem ser visíveis depois de 8 dias aproximadamente e a produção de estruturas reprodutivas do fungo dentro da lesão (período de latência) se presenta a partir dos 15 dias aproximadamente. 

Adicionalmente, o C. gloeosporioides tem a capacidade de quiescência, ou seja, permanece hibernando nos restos das plantas infectadas, resíduos vegetais, como também nas sementes permitindo-lhe sobreviver por um longo período e causar infecção quando se proporcionem as condições adequadas, que geralmente é o momento do amadurecimento do fruto.  



As condições ambientais desempenham um papel importante no desenvolvimento da doença, no caso de antracnose a duração da umidade sobre a superfície da folha é a que influi diretamente sobre o processo de infecção e crescimento do patógeno sobre a planta, por tanto, os períodos prolongados de chuva aumentam o desenvolvimento da doença.  Informou-se que as altas temperaturas (27°C) e alta umidade (80%) no momento do amadurecimento dos frutos favorecem a infecção e a propagação do fungo.

Por outro lado, na pós-colheita a fruta deve ser armazenada ou transportada sob certas condições ambientais para evitar o aparecimento desta doença considerando a característica de quiescência do fungo, estas condições são: temperatura de 13°C, 3-5% de O2, 5-8% de CO2   e  60% de umidade relativa4.

Fotografia da esquerda:  fontes de inóculo de antracnose, se deve recolher os frutos em decomposição e os resíduos da colheita. Fotografia da direita: manipulação inadequada da densidade de plantio e controle de ervas daninhas, aumentando a umidade reativa dentro do cultivo.

 

Dentro das práticas de manejo em campo para evitar o aparecimento da doença no cultivo do mamão estão:

  • Realizar drenagens, para evitar que em condições de alta precipitação a agua se estanque aumentando assim a umidade relativa do cultivo.
  • Poda fitossanitária, eliminar as folhas cloróticas e as senescentes as quais são com frequência, as folhas inferiores da planta.
  • Coleta de folhas senescentes, frutos doentes e frutos caídos, pois são uma fonte de inóculo.
  • No momento da colheita é importante evitar golpear a fruta ou deixá-la cair no chão, por tanto recomenda-se colher fruto por fruto e envolvê-los em papel para evitar o contato com outros frutos.
  • Organizar os frutos em cestas isolando-os do solo.
  • Adequada fertilização principalmente de elementos como Ca  e  B os quais desempenham um papel importante na formação da parede celular dos frutos, dando rigidez.
  • Aplicação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação.

Fotografia da esquerda, manutenção de drenagens. Fotografia da direita, cultivo com poda fitossanitária de folhas e controle de ervas daninhas em linhas de plantio.

 

Depois de colhidos os frutos, os quais geralmente são colhidos em grau de amadurecimento 3 (escala para Colômbia) podem ser lavados ou submergidos em uma solução com agua limpa mais fungicida, geralmente de ingrediente ativo Tiabendazol ou Procloraz; é importante trocar constantemente a solução para evitar contaminações e usar a proteção adequada. Posteriormente à imersão os frutos são secos e cada fruta deve ser protegida com malhas ou espumas que evitem o golpe das frutas. São embalados em caixas, formando somente uma capa de fruta (evitar colocar uma fruta sobre outra) evitando danos mecânicos.

Depois de embalada a fruta deve ser colocada em câmaras frias entre 12-14°C, o ideal é manter a temperatura constante pois se houver um aumento na temperatura pode gerar-se um aumento na respiração da fruta e por tanto uma condensação da agua na embalagem, condição ideal para o crescimento de antracnose. Adicionalmente, é indispensável evitar golpes nas frutas para evitar o amolecimento da epiderme.

Outra medida pós-colheita de controle da antracnose é o tratamento térmico, para isto os frutos são submergidos em agua quente 49°C durante 10 minutos, ou também se pode realizar um choque térmico introduzindo a fruta em agua fria 4°C por 5 minutos mergulhando-a em seguida em agua quente. 

Manejo pós-colheita para o controle da antracnose no mamão. 

Tabelas de amadurecimento do mamão 

 

Grau de amadurecimento em mamão Tainung. Foto Ivonne Quiroga.

Grau de amadurecimento em mamão Maradol. Tomado de  Santamaría et al. 2009.