As abelhas ajudam o café diante de mudanças climáticas

Recentemente, foi publicado um estudo que analisa como seria afetado o café na região de maior produção do grão no mundo: América Latina. A boa notícia é que a diversidade de espécies de abelhas ajudará a compensar a falta de adaptação da planta às mudanças climáticas, graças a polinização.

 

Outubro de 2017, Por Mauricio Rodriguez, Ph.D.

Na última edição da prestigiada revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America) foi publicado um estudo multinacional liderado pelo Centro Internacional de Agricultura Tropical que, conjuntamente a outras instituições de pesquisa científica em vários países, criou um modelo computadorizado da atual e futura distribuição do café e polinizadores associados a esse cultivo, sob diferentes cenários de mudanças climáticas que poderiam ocorrer na América Latina. Os cientistas reconhecem que as mudanças climáticas continuarão sendo um dos principais fatores que afetam a agricultura e as espécies de polinizadores, acarretando efeitos na qualidade de alimentos e o desenvolvimento rural (Imbach, e outros, 2017).

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as mudanças climáticas têm efeitos diretos e indiretos que afetam a produtividade agrícola, tais como as mudanças de padrão das chuvas, estiagem, inundações e a redistribuição geográfica de insetos, incluindo as pragas, e de outros organismos que causam doenças e perda nas plantações (FAO, 2017). Diferentes estudos mostram que para 2050 a superfície global apta para o cultivo de café pode ser reduzida em pelo menos 50% (Ovalle-Rivera, Läderach, Bunn, Obersteiner, & Schroth, 2015). Estas perdas afetam aproximadamente a 100 milhões de agricultores e outras pessoas que vivem do café (Bunn, Läderach, Ovalle-Rivera, & Kirschke, 2015).

Como ocorre com muitos outros commodities agrícolas, um dos principais desafios da produção do café diante as mudanças climáticas é a pouca diversidade genética nos cultivos comerciais (McGuire, 2016). Historicamente, as plantações de café são seriamente ameaçadas pelo aparecimento de infecções por fungos como o que causa a ferrugem, provocada por Hemileia vastratix, ou a mancha de ferro, provocada pelo fungo Cercospora coffeicola. Em relação às pragas, três insetos causam as principais infestações: a broca, Hypothenemus hampei; o bicho mineiro, Leucoptera coffeellum, e a cochonilha da raiz, (Federación Nacional de Cafeteros de Colombia, 2010). Atualmente, existem tecnologias agrícolas para enfrentar algumas destas infestações, como as variedades geneticamente modificadas e os produtos agroquímicos para a proteção do plantio como os fungicidas e inseticidas, porém, a medida que as mudanças climáticas são intensificadas, as pragas e organismos infecciosos tornam-se resistentes à algumas destas tecnologias. Por esta razão, é fundamental para os países da América Latina instaurar ações regulamentares adequadas para os ecossistemas tropicais que permitam futuramente, o desenvolvimento de novas tecnologias e novos produtos.

Por outro lado, foram identificadas mais de 100 espécies de insetos que convivem em harmonia com o café, incluindo os polinizadores como as abelhas. A ação dos polinizadores exerce um efeito positivo sobre o rendimento do cultivo do café, igualmente em relação a quantidade e tamanho de seu fruto. (Roubik, 2002) (Olschewski, Tscharntke, Benítez, Schwarze, & Klein, 2006). Dentre os polinizadores, as abelhas exercem um papel fundamental em fornecer o serviço de polinização no cultivo de café na América Latina.

Os resultados do modelo adotado pelo CIAT [Centro Internacional de Agricultura Tropical] sugerem que é importante estudar tanto os efeitos diretos, bem como indiretos das mudanças climáticas em relação ao cultivo. Para o caso do café, cultivado em nossa região, espera-se que em certas zonas diminuam as áreas aptas para o plantio do café, ao passo que possam aumentar em outras. Ao mesmo tempo, quando as áreas diminuem, a possível diminuição esperada poderia ser amortizada pela presença de um número adequado de polinizadores que aumentem a produtividade. Do contrário, quando o número de polinizadores diminui, isto pode afetar negativamente o plantio, ainda que nas zonas onde haja aumento de áreas adequadas para o cultivo do café. A seguinte figura resume as principais descobertas do estudo.

 

Estudio polinizadores

 

As áreas de cor verde escura em A e B indicam aquelas onde se espera uma associação positiva entre áreas cultiváveis e um bom número de polinizadores (10-22%), enquanto que no verde claro, são as áreas onde havia uma associação negativa entre áreas cultiváveis e número de abelhas (34-51%). Isto demonstra que na cor verde escuro estão as áreas onde aumentariam tanto as condições agronômicas como a polinização, sendo o melhor cenário possível. Na cores laranja claro e escuro, são áreas onde as condições agronômicas melhoram, porém, diminui o número de abelhas (31-33%) e vice-versa (8%). Isto significa que nestes setores a diminuição de área cultivável ou de abelhas, parcialmente compensada pelo aumento em outro fator, diminuindo a probabilidade de perda de produtividade. Em vermelho, estão as áreas onde se concentram o maior número de abelhas (mais de 20 espécies diferentes), indicando um cenário positivo para estes polinizadores, ainda que ocorram mudanças climáticas. O gráfico C na figura indica o número total de espécies de abelhas nas áreas aptas ao cultivo, onde aumentaram as espécies de abelhas (verde) ou diminuíram (marrom), porém, em qualquer dos casos, serão beneficiados pela polinização destes insetos quando há entre 3 e 20 espécies presentes no cultivo.

Ainda que, sob o cenário de aquecimento indicado no estudo, espera-se que as áreas cultiváveis possam diminuir entre 73 e 88%, e o número de espécies de abelhas afetadas por este aquecimento diminua entre 8 e 18%, todas as áreas cultiváveis terão um número adequado de abelhas que ajudarão a melhorar a produtividade por meio da polinização: mais de 5 espécies em todas as áreas e mais de 10 espécies de abelhas de 46 a 59% das áreas cultiváveis. Neste tipo de cenário atuais e futuros, a boa comunicação entre agricultores e apicultores ajudará a fortalecer a sinergia entre as espécies e a promover boas práticas, tanto agrícolas quanto apícolas, que contribuem para a sustentabilidade, a conservação da biodiversidade e a assegurar a produção de alimentos.

Este estudo ressalta como um dos principais desafios, tanto para a agricultura como para a apicultura, continuará sendo as mudanças climáticas e como os avanços e as inovações tecnológicas para a proteção do cultivo e para controlar as doenças e infestações de pragas em abelhas, desempenha um importante papel para continuar promovendo a coexistência positiva entre estas duas práticas e a conservação da biodiversidade.