Uma abordagem baseada em evidências para compreender o que é — e o que não é — a agricultura regenerativa, e como a inovação agrícola pode contribuir para sistemas produtivos mais sustentáveis, resilientes e rentáveis.
Julho 2026
Por Alejandro Hernández PhD
Diretor en Ciência y Biotecnologia
CropLife Latin America
A agricultura regenerativa representa uma oportunidade para avançar em direção a sistemas agrícolas mais produtivos, resilientes e sustentáveis. Trata-se de uma abordagem agrícola baseada em resultados, que busca manter ou melhorar a função do solo, a produtividade, a resiliência climática, a biodiversidade funcional e a viabilidade econômica dos produtores ao longo do tempo.
Ela está fundamentada na ciência do solo, na agronomia e na ecologia, sendo avaliada por meio de indicadores mensuráveis, em vez da adesão a uma lista fixa de práticas. Sua aplicação deve ser específica para cada contexto, adaptando-se à cultura, ao solo, ao clima e ao sistema de produção. [1], [2]
De acordo com a literatura científica atual, a agricultura regenerativa possui três princípios orientadores:
- Resultados, não ideologia. A agricultura regenerativa é definida pelo que é medido — função do solo, dinâmica do carbono, ciclo da água, biodiversidade, produtividade e renda do produtor — e não pela adesão a um único modelo de produção. [1]
- Baseada na ciência e verificável. As alegações sobre os benefícios regenerativos devem ser respaldadas por indicadores que possam ser monitorados, auditados e comparados entre diferentes sistemas de produção. [3]
- Específica para cada contexto. A agricultura regenerativa não prescreve uma receita universal. As práticas adequadas para café em áreas montanhosas, soja no Cerrado, arroz irrigado, horticultura intensiva ou milho de sequeiro serão diferentes. Os resultados dependem do tipo de solo, do clima, do desenho das rotações de culturas e da realidade econômica do produtor. [2]
Qual é a base científica da agricultura regenerativa?
A literatura científica converge para uma definição operacional segundo a qual a agricultura regenerativa é uma abordagem de produção agrícola que utiliza a conservação do solo como ponto de partida para gerar múltiplos serviços ecossistêmicos, ao mesmo tempo em que integra resultados socioeconômicos, como a segurança alimentar e os meios de subsistência dos produtores. [3], [4]

Ao mesmo tempo, o termo não possui uma definição regulatória única e universalmente aceita. Diversos autores alertam que essa ambiguidade pode reduzir o conceito a uma estratégia de marketing, em vez de consolidá-lo como um sistema mensurável de práticas agrícolas. [5]
A agricultura regenerativa envolve ações nas seguintes frentes:
Saúde do solo como fundamento. Construir ou manter a matéria orgânica do solo, a atividade biológica, a estrutura, a infiltração de água e a capacidade de retenção de água. [5]
Biodiversidade funcional. Favorecer as redes tróficas do solo, os polinizadores e os inimigos naturais das pragas por meio de rotações diversificadas, culturas de cobertura e manejo de habitats. [6]
Adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Aumentar a resiliência à seca, ao calor e ao excesso de chuvas, além de contribuir para o sequestro de carbono quando as condições biofísicas permitirem. [1], [5]
Viabilidade econômica dos produtores. Sem rentabilidade, as práticas regenerativas não serão adotadas em larga escala. [7], [8]
Indicadores mensuráveis como requisito
É fundamental fundamentar cientificamente os benefícios atribuídos à agricultura regenerativa. Para isso, é necessário implementar avaliações com indicadores que possam ser comparados e auditados ao longo do tempo, tais como:

- Matéria orgânica do solo e estoques de carbono orgânico do solo.
- Dinâmica da água: taxa de infiltração, capacidade de retenção de água e redução do escoamento superficial.
- Controle da erosão: taxas de erosão hídrica e eólica.
- Biodiversidade funcional: atividade microbiana do solo, densidade de polinizadores e populações de inimigos naturais.
- Eficiência no uso de nutrientes.
- Produtividade: rendimento, qualidade e estabilidade da produção sob estresse climático.
- Resultados econômicos: rentabilidade do produtor, renda ajustada ao risco e custo dos insumos por unidade produzida.
- Intensidade de uso de insumos: volume de produtos para proteção de cultivos por unidade produzida, tratado como uma métrica de manejo responsável e não como um objetivo em si.
- Resiliência: estabilidade da produção diante de eventos de seca, calor ou excesso de chuvas.
O que a agricultura regenerativa não é?
❌ Não é sinônimo de agricultura orgânica. Os sistemas orgânicos possuem requisitos específicos de certificação e podem enfrentar desafios relacionados ao rendimento ou ao manejo de pragas. A agricultura regenerativa não exige certificação orgânica. [9]
❌ Não é livre de pesticidas por definição. A exclusão de ferramentas de proteção de cultivos não é um critério definidor. O importante é seu uso responsável, integrado e baseado na necessidade, dentro de estruturas fundamentadas na ciência. [6], [9]
❌ Não garante maiores rendimentos em todos os contextos. Os resultados em produtividade dependem do contexto, das condições iniciais do solo e da intensidade do manejo. [2], [9]
❌ Não é uma receita única para todas as situações. As práticas devem ser adaptadas à cultura, ao solo, ao clima e às condições econômicas. [2],[10]
❌ Não substitui a regulamentação baseada na ciência. A agricultura regenerativa complementa, mas não substitui, a supervisão regulatória dos insumos agrícolas baseada em evidências científicas. [3], [5]
A inovação e as ferramentas modernas na agricultura regenerativa
A agricultura regenerativa é compatível com — e frequentemente se beneficia de — ferramentas agrícolas modernas, desde que sejam utilizadas dentro de estruturas de manejo responsável baseadas na ciência. [11] Quando utilizados de forma responsável, segundo os princípios do Manejo Integrado de Pragas, os produtos para proteção de cultivos podem fazer parte do conjunto de ferramentas empregadas pelos agricultores para alcançar resultados regenerativos mensuráveis. [6] Isso inclui:
- Manejo Integrado de Pragas. O MIP é uma estrutura fundamental, baseada na ciência, para o manejo de pragas, doenças e plantas daninhas. [12, p. 409], [13, p. 1988] A agricultura regenerativa se apoia no MIP ao incorporar resultados explícitos relacionados à saúde do solo, à biodiversidade funcional, à eficiência no uso de insumos e à resiliência do sistema. [14, p. 5] O MIP não é um modelo ultrapassado que deva ser substituído; ele é uma linha de base que os sistemas regenerativos ampliam. [15, p. 324]
- Soluções biológicas e biorracionais. Elas podem complementar ou reduzir a dependência de soluções químicas convencionais e estão bem alinhadas aos princípios regenerativos. [16, p. 17]
- Agricultura de precisão e agricultura digital. A aplicação direcionada, as ferramentas de apoio à tomada de decisão e a análise de dados podem aumentar a eficiência no uso de insumos e reduzir a pegada ambiental. [17, p. 3]
- Manejo responsável e boas práticas de gestão. O manuseio responsável, o momento adequado de aplicação, o manejo da deriva e o manejo da resistência são essenciais para o uso seguro e eficaz de qualquer insumo agrícola. [18, p. 1206]
Contribuição da indústria da ciência dos cultivos
As empresas associadas contribuem para a agricultura regenerativa por meio da inovação em proteção de cultivos, soluções biológicas, ferramentas digitais, tecnologias de precisão e programas de manejo responsável. Essas contribuições podem ajudar os agricultores a produzir mais e com maior eficiência, reduzir perdas causadas por pragas, doenças e plantas daninhas, otimizar o uso dos recursos e fortalecer sua capacidade de adaptação diante de condições climáticas cada vez mais desafiadoras.
Os exemplos a seguir ilustram como essa contribuição é colocada em prática. São exemplos ilustrativos, não exaustivos, e não são apresentados como evidência científica de resultados regenerativos.
Conclusão: A agricultura regenerativa é mais sólida quando:
1) É definida por resultados verificáveis, e não por ideologia.
2) É respaldada pela ciência do solo, pela agronomia e pela ecologia.
3) Reconhece a diversidade de culturas, climas e sistemas produtivos da América Latina.
4) Integra ferramentas modernas, como o Manejo Integrado de Pragas, a agricultura de precisão, os bioinsumos e o manejo responsável de produtos para proteção de cultivos.
5) Avalia seus avanços por meio de indicadores transparentes, comparáveis e auditáveis.
Quando estruturada dessa maneira, a agricultura regenerativa oferece um caminho construtivo para fortalecer a produtividade, a rentabilidade, o desempenho ambiental e a resiliência, sem pressupor uma única tecnologia, regime de insumos ou filosofia de produção. [3], [2]
Preguntas Frequentes sobre Agricultura Regenerativa
O que é agricultura regenerativa?
A agricultura regenerativa é uma abordagem de produção agrícola baseada em resultados mensuráveis — e não em uma lista fixa de práticas — que busca manter ou melhorar a função do solo, a biodiversidade, a resiliência climática e a viabilidade econômica do produtor ao longo do tempo. [1], [2]
A agricultura regenerativa é o mesmo que a agricultura orgânica?
Não. A agricultura regenerativa não exige certificação orgânica nem exclui, por definição, o uso de pesticidas ou fertilizantes sintéticos. Os sistemas orgânicos, por outro lado, seguem requisitos específicos de certificação e podem enfrentar diferenças de produtividade ou desafios no manejo de pragas. [9]
A agricultura regenerativa proíbe o uso de pesticidas?
Não. A exclusão de ferramentas de proteção de cultivos não é um critério definidor da agricultura regenerativa. O que define um sistema regenerativo é o uso responsável, integrado e baseado na necessidade, dentro de estruturas como o Manejo Integrado de Pragas. [6], [9]
A agricultura regenerativa garante maiores rendimentos?
Não necessariamente. Os resultados de produtividade dependem do contexto, incluindo o tipo de cultura, a condição inicial do solo, o clima e a intensidade do manejo. Não existe uma promessa universal de maior rendimento. [2], [9]
Existe uma certificação oficial de agricultura regenerativa?
Não existe uma definição regulatória única e universalmente aceita. Vários autores apontam essa ambiguidade como um risco: sem indicadores mensuráveis e auditáveis, o termo pode se transformar em uma estratégia de marketing, em vez de constituir um sistema verificável de práticas. [5]
Como se mede se um sistema é realmente regenerativo?
A avaliação é feita por meio de indicadores comparáveis ao longo do tempo, como matéria orgânica do solo, taxa de infiltração de água, atividade microbiana, estabilidade do rendimento sob estresse climático e rentabilidade do produtor — e não pela adesão a uma prática específica. [3]
As ferramentas da agricultura moderna são compatíveis com a agricultura regenerativa?
Sim. A agricultura regenerativa é compatível com — e frequentemente se beneficia de — tecnologias como a agricultura de precisão, as soluções biológicas e o Manejo Integrado de Pragas, desde que sejam aplicadas dentro de estruturas de manejo responsável baseadas na ciência. [11], [6]
A agricultura regenerativa pode incorporar sementes geneticamente modificadas ou melhoradas?
Sim. Como a agricultura regenerativa é definida por resultados mensuráveis — saúde do solo, biodiversidade, produtividade e resiliência climática — e não pela exclusão de tecnologias específicas, ela não proíbe, por definição, o uso de sementes geneticamente modificadas ou melhoradas por métodos convencionais ou biotecnológicos. [5],[19],[20]
Essa abertura é coerente com sua definição baseada na mensuração da regeneração e com o princípio de que o que importa é o resultado, e não a ferramenta. [1], [14]
A adoção efetiva varia de acordo com o país. Na América Latina, existem estruturas regulatórias consolidadas que facilitaram a adoção de culturas biotecnológicas, enquanto em outras regiões as taxas de adoção são mais baixas. [21], [22], [23], [24]
O uso de sementes melhoradas — seja por métodos convencionais, hibridação ou biotecnologia — também pode apoiar vários indicadores regenerativos, como a estabilidade do rendimento sob estresse climático e a eficiência no uso de insumos, desde que essas sementes sejam integradas a um manejo agronômico baseado na ciência e ao monitoramento do solo. [7], [25], [26]
Essa integração busca otimizar a resiliência dos agroecossistemas diante da crescente incerteza climática, sem se contrapor à adoção de estratégias que promovam a biodiversidade e a sustentabilidade em longo prazo.
¿La agricultura regenerativa aplica igual en todos los cultivos y regiones de América Latina?
No. Es específica para cada contexto: las prácticas adecuadas para café en laderas, soya en el Cerrado, arroz bajo riego o maíz de secano son distintas entre sí, porque dependen del suelo, el clima y la economía del productor. [2]
A agricultura regenerativa é aplicada da mesma forma em todas as culturas e regiões da América Latina?
O Manejo Integrado de Pragas é a linha de base científica sobre a qual são construídos os resultados regenerativos no manejo de pragas, doenças e plantas daninhas. [12, p. 409], [13, p. 1988]
A agricultura regenerativa não substitui o MIP. Em vez disso, amplia-o ao incorporar metas explícitas relacionadas à saúde do solo, à biodiversidade funcional e à eficiência no uso de insumos dentro da mesma estrutura de tomada de decisão. [14, p. 5], [15, p. 324]
A rotação de culturas, por si só, é suficiente para que um sistema seja considerado regenerativo?
Não. Nenhuma prática individual — incluindo a rotação de culturas — define, por si só, um sistema como regenerativo. O que o define é o resultado mensurável produzido por essa prática em termos de função do solo, biodiversidade, produtividade e renda do produtor. [1]
A rotação de culturas pode ser uma ferramenta valiosa dentro de um sistema regenerativo, especialmente para promover a biodiversidade funcional, [6] mas sua adoção, por si só, não substitui a necessidade de verificar os resultados por meio de indicadores auditáveis. [3]
Referências
[1] K. R. Wilson, R. L. Myers, M. Hendrickson, and E. A. Heaton, “Different Stakeholders’ Conceptualizations and Perspectives of Regenerative Agriculture Reveals More Consensus Than Discord,” Nov. 2022, doi: 10.3390/su142215261.
[2] K. E. Giller, R. Hijbeek, J. Andersson, and J. Sumberg, “Regenerative Agriculture: An agronomic perspective,” Mar. 2021, doi: 10.1177/0030727021998063.
[3] S. Jayasinghe, D. Thomas, J. P. Anderson, C. Chen, and B. Macdonald, “Global Application of Regenerative Agriculture: A Review of Definitions and Assessment Approaches,” Nov. 2023, doi: 10.3390/su152215941.
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[24] Y. C. Colmenárez and C. Vásquez, “Benefits associated with the implementation of biological control programmes in Latin America,” May 2024, doi: 10.1007/s10526-024-10260-7.
[25] M. G. Manzeke‐Kangara, E. J. M. Joy, R. M. Lark, S. Redfern, A. Eilander, and M. R. Broadley, “Do agronomic approaches aligned to regenerative agriculture improve the micronutrient concentrations of edible portions of crops? A scoping review of evidence,” Jul. 2023, doi: 10.3389/fnut.2023.1078667.
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