Novembro 2025
Abel Araya
profesor asociado Instituto profesional Duoc UC
Chile
Baseado no webinar realizado em 6 de outubro de 2025, organizado pela AFIPA
1. Introdução
Este documento resume os principais conteúdos apresentados pelo Professor Abel Araya sobre o papel das bordas florais como ferramenta sustentável nos sistemas agrícolas. A apresentação incluiu fundamentos ecológicos, experiências práticas e dados técnicos derivados do projeto “Bordas florais como ferramentas sustentáveis para a melhoria produtiva em um cultivo de cerejeiras da variedade Santina.”
Especificamente, foi compartilhada a experiência de um pomar piloto que contou com acompanhamento e assistência técnica para implementar Boas Práticas Agrícolas (BPA), um plano de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e uma gestão responsável de produtos fitossanitários. Todos esses fatores contribuíram para um aumento de 75% na produtividade agrícola do pomar de cerejeiras, com a maior parte da colheita destinada à exportação.
O objetivo central do webinar foi demonstrar como as bordas florais contribuem para a sustentabilidade agrícola por meio da promoção de serviços ecossistêmicos, do fortalecimento do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e da melhoria da produtividade em equilíbrio com a conservação ambiental.
2. Fundamentos ecológicos
O conceito de sucessão ecológica é a base para compreender os processos de mudança e estabilidade nos ecossistemas. Trata-se do desenvolvimento natural das comunidades biológicas que, ao longo do tempo, alcançam um estado de equilíbrio denominado comunidade clímax.
No contexto agrícola, a intervenção humana modifica essa sucessão por meio do uso do solo, dos insumos e das práticas de manejo, configurando o que se conhece como agroecossistema. Nesses sistemas simplificados, com baixa diversidade e alta disponibilidade de alimento, surgem condições que permitem que certos organismos se transformem em pragas.
As bordas florais atuam como uma estratégia para reintroduzir diversidade funcional, equilibrando os processos ecológicos e favorecendo a presença de inimigos naturais e polinizadores.
3. O que são bordas florais?
As bordas florais correspondem a faixas de dimensões variáveis, estabelecidas nas margens ou em áreas não produtivas de um pomar, compostas por espécies vegetais de floração atrativa e prolongada. Sua incorporação nos agroecossistemas promove serviços ecossistêmicos essenciais, ao criar nichos que atraem insetos benéficos, como polinizadores e agentes de controle biológico, fortalecendo as estratégias de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e melhorando a resiliência do sistema agrícola.

4.Objetivos de implementação
Os principais objetivos da implementação de bordas florais incluem:
- Potencializar os serviços ecossistêmicos relacionados à polinização e ao controle biológico.
- Melhorar a produtividade e a sustentabilidade dos cultivos por meio do equilíbrio ecológico.
- Fortalecer as estratégias de manejo integrado de pragas e reduzir a dependência de agroquímicos.
5. Sustentabilidade a longo prazo
Abel Araya destacou que a sustentabilidade agrícola deve ser compreendida em termos econômicos, ecológicos e sociais, o chamado triplo impacto. Preservar os polinizadores e os inimigos naturais significa assegurar a base da produção futura.
Estima-se que a polinização natural represente um valor econômico global superior a 153 bilhões de euros por ano (Ricou et al., 2014; Vilhena et al., 2012), e sua perda teria consequências catastróficas.
Investir hoje em bordas florais é mais eficiente do que enfrentar a escassez de polinizadores no futuro. Além disso, agroecossistemas equilibrados apresentam menores flutuações nos rendimentos anuais, contribuindo para a estabilidade econômica e melhorando a imagem comercial dos produtos agrícolas por meio do marketing verde.
6. Experiência prática: cerejeiras da variedade Santina
O projeto “Bordas florais como ferramentas sustentáveis para a melhoria produtiva em um cultivo de cerejeiras da variedade Santina” demonstrou a viabilidade técnica e econômica dessa prática. O pomar de cerejeiras está localizado no município de Coltauco, região de O’Higgins, possui um hectare de extensão e pertence ao agricultor Cristian Osorio. A intervenção realizada no pomar faz parte do projeto Agricultura Sustentável em Ação, conhecido pela sigla SPMF em inglês.
A implementação de Boas Práticas Agrícolas (BPA), do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e da gestão responsável de produtos fitossanitários foram fatores-chave para aumentar significativamente tanto a produtividade quanto a qualidade das cerejas.
Nesse caso, a instalação de faixas florais nas bordas do cultivo permitiu aumentar a presença de polinizadores, melhorar a fecundação e estabilizar os rendimentos sem a necessidade de aumentar os insumos químicos. Também foram observados benefícios adicionais no controle natural de pragas e na melhoria da paisagem agrícola, consolidando uma relação virtuosa entre produção e conservação.

Pomar de cerejeiras localizado no município de Coltauco, região de O’Higgins. Área: um hectare

Observou-se que a população de polinizadores e insetos era mais abundante nas áreas próximas às bordas florais

As cerejeiras apresentaram maior pegamento de frutos nas áreas com maior quantidade de insetos durante a colheita,
indicando a extrapolação da entomofauna benéfica das bordas florais para as árvores mais próximas
7. Implementação: desenho e sincronização
O desenho da borda floral deve basear-se na seleção estratégica de espécies de acordo com o período de floração, a compatibilidade agronômica e a função ecológica.
No caso do pomar de cerejeiras, foram selecionadas nove espécies vegetais, sendo três nativas e seis exóticas.


É fundamental planejar a sincronização das florações entre a borda floral e o cultivo principal, a fim de alinhar os períodos de antese e promover a chegada e permanência dos polinizadores em ambas as áreas.

Dessa forma, a polinização cruzada e a transferência de serviços ecossistêmicos são potencializadas, gerando benefícios tangíveis para a produção.
Cada uma das nove espécies utilizadas na borda floral atraiu diferentes insetos, sendo as abelhas e os sirfídeos os mais frequentes.

8. Instalação e manejo prévio do solo
Durante a instalação, recomenda-se a construção de uma cerca perimetral que restrinja o acesso e evite danos causados por lagomorfos, protegendo as plantas jovens durante a fase de estabelecimento.

Uma prática complementar fundamental é a semeadura cega, que consiste em irrigar intensamente o solo antes do plantio para estimular a germinação de plantas daninhas latentes. Essas plantas são eliminadas antes do transplante das espécies selecionadas, reduzindo a competição inicial e aumentando o sucesso da borda floral.
9. Visão de futuro
A implementação de bordas florais projeta-se como uma prática altamente funcional dentro da agricultura sustentável moderna. Deve ser compreendida como um investimento na produtividade presente e futura, ao favorecer a conservação in situ de polinizadores e outros organismos auxiliares.
Essa prática incorpora o paradigma do land sharing, no qual a produção agrícola e a conservação da biodiversidade coexistem em benefício mútuo, promovendo sistemas agrícolas mais resilientes e sustentáveis.
10. Conclusões
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As bordas florais representam uma ferramenta eficaz de manejo ecológico que integra produtividade, sustentabilidade e responsabilidade ambiental.
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Ao equilibrar os processos ecológicos e fortalecer os serviços ecossistêmicos, constituem uma alternativa viável para reduzir o uso de agroquímicos, melhorar a qualidade dos cultivos e garantir a estabilidade econômica dos produtores a longo prazo.
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Com base nos resultados, recomenda-se incluir mais faixas florais em diferentes pontos da área agrícola para potencializar seus benefícios.
A experiência do pomar de cerejeiras no Chile demonstra que boas práticas de campo, adoção de inovações e a aplicação da ciência podem convergir com sucesso, oferecendo um caminho claro para uma agricultura mais equilibrada, competitiva e respeitosa com o ambiente natural.















